25/06/2026

A Ilusão da Sorte: Como as Bets e os Jogos de Azar Podem Comprometer a Saúde Mental

 

Os impactos que vão muito além do bolso

Nos últimos anos, os jogos de apostas online, popularmente conhecidos como "bets", passaram a fazer parte do cotidiano de milhões de brasileiros. Com propagandas frequentes em transmissões esportivas, redes sociais e plataformas digitais, a prática tem sido apresentada como uma forma simples de entretenimento e ganho financeiro. No entanto, por trás das promessas de lucro rápido, existe uma realidade preocupante que merece atenção.



O primeiro impacto costuma ser financeiro. Muitas pessoas começam apostando pequenos valores, mas, à medida que as perdas acontecem, surge a tentativa de recuperar o dinheiro perdido. Esse comportamento pode gerar dívidas, empréstimos, comprometimento da renda familiar e até situações de inadimplência.

Entretanto, os prejuízos não param por aí.

Na saúde emocional, é comum o surgimento de ansiedade, irritabilidade, sentimento de culpa, vergonha, baixa autoestima e sintomas depressivos. A pessoa passa a viver em constante expectativa de ganhar ou recuperar aquilo que perdeu, desenvolvendo um estado de tensão quase permanente.

A saúde física também pode ser afetada. Alterações no sono, fadiga, dores de cabeça frequentes, dificuldades de concentração e aumento do estresse são sintomas comuns entre pessoas que apresentam comportamentos compulsivos relacionados ao jogo.

No ambiente familiar, os conflitos tendem a aumentar. Mentiras, ocultação de gastos, dificuldades financeiras e afastamento emocional podem comprometer relacionamentos afetivos e gerar sofrimento para todos os envolvidos.

Já na vida social, muitas pessoas começam a se isolar, abandonando atividades que antes proporcionavam prazer, reduzindo o contato com amigos e familiares e concentrando cada vez mais tempo e energia nas apostas.

Por que os jogos de azar causam dependência?

Para compreender esse fenômeno, é importante entender como funciona o cérebro humano.

Nosso cérebro possui um sistema de recompensa responsável pela sensação de prazer e motivação. Quando vivenciamos experiências agradáveis, ocorre a liberação de neurotransmissores, especialmente a dopamina.

As plataformas de apostas utilizam estratégias capazes de estimular constantemente esse sistema. Pequenas vitórias, bônus, promoções e a possibilidade de ganhos futuros mantêm o cérebro em estado de expectativa permanente.

Esse mecanismo psicológico é conhecido como reforço intermitente. Em outras palavras, a recompensa não acontece sempre, mas acontece ocasionalmente. E justamente por não ser previsível, ela se torna ainda mais poderosa para manter o comportamento.

É o mesmo princípio observado em outras formas de dependência comportamental.

A pessoa passa a acreditar que a próxima aposta pode mudar sua vida, recuperar prejuízos anteriores ou finalmente trazer o ganho esperado. Assim, o ciclo continua se repetindo.

Quando o jogo deixa de ser diversão?

Nem toda pessoa que aposta desenvolverá dependência. Porém, alguns sinais merecem atenção:

  • Pensar constantemente em apostas;

  • Gastar mais dinheiro do que planejou;

  • Tentar recuperar perdas apostando novamente;

  • Mentir sobre o tempo ou o dinheiro gasto;

  • Sentir irritação ou ansiedade quando não consegue jogar;

  • Negligenciar trabalho, estudos ou relacionamentos;

  • Perder o controle sobre a frequência das apostas.

Quando esses sinais começam a aparecer, é importante buscar ajuda especializada.

Existe tratamento?

Sim.

A dependência em jogos de azar pode ser tratada e quanto mais cedo o acompanhamento for iniciado, maiores são as chances de recuperação.

A psicoterapia ajuda a identificar os gatilhos emocionais envolvidos no comportamento de apostar, compreender padrões de pensamento disfuncionais e desenvolver estratégias mais saudáveis para lidar com ansiedade, impulsividade, frustrações e dificuldades emocionais.

Além disso, o processo terapêutico auxilia na reconstrução da autoestima, no fortalecimento do autocontrole e na retomada da qualidade de vida.

Em alguns casos, quando existem sintomas importantes de ansiedade ou depressão associados, pode ser recomendada uma avaliação psiquiátrica complementar.

Um convite à reflexão

As propagandas de apostas antes dos jogos de futebol e em diversos meios de comunicação têm despertado uma importante discussão na sociedade brasileira.

Embora sejam apresentadas como entretenimento, é fundamental compreender que jogos de azar envolvem riscos reais para a saúde mental, financeira e social.

A verdadeira liberdade não está na promessa de ganhos rápidos, mas na capacidade de fazer escolhas conscientes e manter o controle sobre a própria vida.

Se você percebe que as apostas estão ocupando mais espaço do que deveriam na sua rotina ou conhece alguém que esteja enfrentando essa dificuldade, procurar ajuda pode ser o primeiro passo para a mudança.

Agende sua consulta

Matheus de Oliveira
Psicólogo – CRP 03/18.193

📱 WhatsApp: (73) 98817-7680

Redes Sociais

📸 Instagram: @matheuspsicologo_

📘 Facebook: Matheus Oliveira

🎥 YouTube: CaféComPsicólogo


Cuidar da saúde mental é investir na sua qualidade de vida.

AOS 99 ANOS, MESTRE FELIPE SEGUE ENSINANDO OS VALORES DA CAPOEIRA ANGOLA


Foto: Matheus (Ipiaú-Ba), (Mestre Felipe sentado): Santo Amaro- Ba, 2026.

Matéria publicada no Giro Ipiaú. Em uma visita memorável ao Recôncavo Baiano, a Associação de Capoeira Angola Mucumbo de Mestre Virgílio de Ilhéus (em memória) e estudantes de Ciências Sociais da UESC (Ilhéus-BA) celebraram o legado, a sabedoria e a resistência do capoeirista de Angola mais velho do mundo em atividade.

No último final de semana (06 e 07 de junho de 2026), o município de Santo Amaro, no Recôncavo Baiano, foi palco de um encontro que uniu gerações, história e muita emoção. O grupo de estudantes do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), acompanhados pela Professora Doutora Flávia Alessandra de Souza, junto com o contramestre Fabão e o professor Arthur, esteve presente para homenagear o Mestre Felipe Santiago, que completou 99 anos em 11 de maio de 2026.

A filosofia do Mestre: elegância, amor e bem-estar

Mais do que técnica, Mestre Felipe — carinhosamente chamado de “Neco” — compartilha uma lição de vida. Sendo hoje um velho angoleiro assentado e lúcido, ele brinca com a sabedoria de quem já viveu muito: “Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé”. Ele recebe a todos com uma elegância e gentileza singulares, dedicando seus dias a transmitir os valores aprendidos com os antigos. Como ele mesmo diz: “Nasci não tive, vou morrer não vou levar; aquilo que souber não me custa nada eu passar”.

Foto: Associação de Capoeira Angola Mucumbo (Ilhéus-Ba). Foto 2: Santo Amaro- Ba, 2026.

Para o Mestre, a capoeira — que ele afirma ter sido o primeiro esporte do mundo — não é violência, mas uma prática de bem-estar, filosofia e inteligência emocional, mantendo o foco na mandinga, na estratégia, na ancestralidade e na ritualística. Ele enfatiza: “O capoeirista deve ser contido, não exibicionista”. Para ele, a fama não vem apenas do jogo, mas da educação, da ética e da diplomacia. “Você entra para se mostrar, ele entra para aprender”, diz, reforçando que o verdadeiro capoeirista é aquele que sabe brincar e apanhar sorrindo, sem ser tomado pelo ódio ou pela raiva.

Conexões entre teoria e ancestralidade

A visita foi uma imersão na história de resistência do povo negro. Mestre Felipe recorda como a capoeira era perseguida e vista como “coisa de malandro”, nascida nos matos e nas pontas de rua, até ganhar as praças e, finalmente, as escolas. As/os estudantes da UESC em visita puderam correlacionar essas memórias com as reflexões do grandioso sociólogo W.E.B. Du Bois, autor do clássico livro As Almas do Povo Negro (1903), ensinado pela professora Flávia Alessandra na UESC, percebendo a Capoeira Angola como uma prática reflexiva vital de resistência cultural. Mestre Felipe de Santo Amaro também nos relembrou figuras como o justiceiro Besouro Mangangá, que utilizava a capoeira para defender as pessoas menos favorecidas contra as injustiças sociais da época.

O despertar de um Mestre

Foto: Associação de Capoeira Angola Mucumbo (Ilhéus-Ba). Foto 3 (Mestre Felipe sentado à esquerda, Mestre Virgílio sentado à direita e Prof.ª Flávia Alessandra sentada ao chão): Santo Amaro- Ba, 2023.

O interesse de Mestre Felipe pela capoeira nasceu na infância, observando rodas sob as árvores em Santo Amaro. Seu gatilho motivador veio aos 18 anos, quando, conversando sob uma jaqueira com Mestre Arlindo, começou a cantar e recebeu o incentivo definitivo: “Neco, você tem jeito”. Após interrupções no trabalho, a disciplina o guiou ao aperfeiçoamento. Sobre a evolução das músicas e da própria capoeira, ele pontua: “A mudança é necessária, mas temos que ver como e em que se muda”.

Um encontro de fraternidade: o grupo Mucumbo

Foto: Associação de Capoeira Angola Mucumbo (Ilhéus-Ba). Foto 4 (A esquerda Prof.ª Flávia Alessandra, Mestre Felipe ao centro e a direita Simone Ferreira Souza, filha do Mestre): Santo Amaro- Ba, 2026.

A visita ao Mestre Felipe de Santo Amaro só foi possível porque Mestre Virgílio de Ilhéus (em memória), seu irmão-amigo na Capoeira Angola, nos deixou esta tradição de visitação por meio da sua atuante Associação de Capoeira Angola Mucumbo de Ilhéus. Cumprindo o ensinamento deixado por Mestre Virgílio de Ilhéus, de sempre honrar Mestre Felipe de Santo Amaro, as/os integrantes do Mucumbo uniram-se às/aos estudantes da UESC para celebrar esse elo eterno de amizade, respeito e ancestralidade.

“Eu Nasci em Santo Amaro”

Mestre Virgílio de Ilhéus (em memória) é Doutor Honoris Causa pela UESC e, antes de sua passagem, titulou o contramestre Fabão, a professora Camila Cassano e o professor Arthur Santos para estarem à frente e darem continuidade à Capoeira Angola na Mucumbo. Mestre Felipe Santiago de Santo Amaro é Doutor Honoris Causa pela UFRB. Ambos são reconhecidos como os velhos angoleiros do mundo e gigantes da arte brincante.

Foto: Matheus (Ipiaú-Ba), (Mestre Felipe sentado): Santo Amaro- Ba, 2026.

A lição final

Esta matéria se encerra com o precioso convite que Mestre Felipe nos faz, em forma de poesia: “Capoeira, esporte é defesa, é ataque, é luta e é dança, é cultura e é folclore, é saúde e é arte. […] trago a capoeira enraizada no meu corpo e plantada no meu coração. Por isso eu aviso a vocês que façam o que eu faço: faça da capoeira a planta e o seu coração o jarro.”

A visita termina com um gosto superespecial de “quero mais”, com o Mestre Felipe entoando versos autorais inesquecíveis da musicalidade de Angola: “Ôh seu chofer, é hora de viajar, eu tava na beira da linha fazendo farinha pro carro levar.”

Mestre Virgilio de Ilhéus (em memória) é Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC (Ilhéus-Ba), e, antes de sua passagem, ele titulou o contramestre Fabão, a professora Camila Cassano e o professor Arthur Santos para estarem à frente e darem continuidade à Capoeira Angola na Mucumbo.

Mestre Felipe Santiago de Santo Amaro é Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Recôncavo Baiano – UFRB (multicampi). Ambos têm uma infinidade de títulos e de adeptos na Bahia, no Brasil e em inúmeros países, sendo reconhecidos imensamente como os velhos angoleiros do mundo, os gigantes da arte brincante.

Acompanhe o Mestre Felipe Santiago: @mestrefelipesantiago
Acompanhe o Grupo Mucumbo: @mucumbo_acam


Autor: Matheus de Oliveira Silva, estudante de Ciências Sociais na UESC e psicólogo, em constante busca dos saberes ancestrais para compreender as feridas e as curas do nosso tempo. @matheuspsicologo_

Publicado por: postado em às 20:32

Postagem em destaque

A Ilusão da Sorte: Como as Bets e os Jogos de Azar Podem Comprometer a Saúde Mental

  Os impactos que vão muito além do bolso Nos últimos anos, os jogos de apostas online, popularmente conhecidos como "bets", passa...